26 de maio de 2014

Crítica: Uma Longa Queda

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Os altos e baixos da vida.
O autor Nick Hornby, entre vários trabalhos, já teve sucesso com um dos seus livros no cinema: a comédia “Alta Fidelidade” (2000) está na lista de favoritos de muita gente. Agora, chegou a hora de “Uma Longa Queda” (edição brasileira pela Companhia das Letras) virar filme.
Já na ideia o filme dá espaço para incerteza – trata-se de uma comédia-drama sobre suicídio. Mas um roteiro divertido, mais a direção cuidadosa de Pascal Chaumeil garantem que o filme não caia em nenhuma das armadilhas do tema e divirta.
Martin (Pierce Brosnan) é um apresentador de televisão arruinado. Maureen (Toni Collette) é uma dona de casa que vive em função de um filho portador de necessidades especiais. Jess (Imogen Poots) é a filha revoltada de um político influente. J.J. (Aaron Paul) é um entregador de pizza sem perspectivas na vida.
Os quatro desconhecidos se encontram por acaso na noite do Ano Novo no topo de um prédio, prestes a se suicidarem. Com os planos cancelados, os quatro fazem um pacto – estavam todos proibidos de se matar até o Dia dos Namorados (Valentine’s Day), e as circunstâncias passam a juntá-los e mudar suas vidas de maneiras inesperadas.

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Se você é fã do livro, é melhor ir ao cinema com a mente aberta, pois existem várias alterações, especialmente para o fim da trama. Ainda assim, “Uma Longa Queda” não trai suas origens, e traz personagens muito bem escritos, bem como diálogos interessantes e algumas heranças de formato.
O filme é discretamente dividido em partes, cada uma levando o nome de um dos quatro protagonistas e ganhando foco e narração deles. Isso ajuda a ganharmos simpatia do grupo e nos dá rapidamente pontos-de-vista diferentes das relações dos personagens.
A temática de suicídio é tratada com uma maturidade e cuidado únicos, conseguindo adicionar humor sem forçar a barra em qualquer momento. O filme não fecha os olhos para o fato que suicídio é uma coisa trágica, e não torna leviana a decisão dos personagens. Mesmo a discussão do que é um “bom motivo” ou “mau motivo” para se matar não apresenta pontos finais, propositadamente, e prefere mostrar que tristeza, desesperança ou desespero tem muitas causas e podem afetar qualquer um.
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Há ainda outros temas interessantes e surpreendentemente sérios, como a relação entre pais e filhos e até uma pontinha sobre as dificuldades de tratamento de portadores de necessidades especiais refletido na relação de Maureen e seu filho Matty.
Calma, eu não estava mentindo quando disse que existem elementos cômicos no filme. O melhor é que eles estão lá juntamente de todas as discussões mais sérias.
Inclusive, apesar de tudo isso e de um clima de melancolia intermitente, no geral até mesmo as cenas tristes nos deixam com um sorriso no rosto porque há sempre um “que” de esperança. Cada um a seu modo, os protagonistas também arrancam risos pelas ótimas situações, especialmente pela personalidade amalucada de Jess ou o egocentrismo de Martin.
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Uma das principais reflexões da obra é exatamente como levar a vida adiante apesar dos pesares, então temos quatro personagens que são falidos, se não por dinheiro, por sanidade, moral ou reputação. Nenhum deles tem grandes perspectivas, e aqui, mesmo que nenhum deles seja exatamente um molde muito comum, conseguimos nos ver em suas condições diversas vezes. Algo que ajuda muito é que a divisão por capítulos, bem como um cuidado de montagem, garantindo que tenhamos praticamente o mesmo tempo de tela para todos – nenhum dos quatro é “mais protagonista” que os outros.
Quando o plano de suicídio falha, o grupo acaba descoberto e perseguido pela mídia, alvo dos paparazzi e dos curiosos, embutindo na trama críticas interessantes sobre a fama e sobre o que as pessoas esperam disso. Se as lições sobre a vida e a morte são otimistas, aqui a perspectiva não é tão boa, e o humor se torna mais ácido (não que isso seja ruim, pelo contrário).
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No fim das contas, se olharmos bem, o enredo em si é relativamente simples e caminha por rotas seguras. A cada pequeno conflito que surge, não é difícil imaginar para onde a história irá seguir, mas também não é como se o filme tivesse a pretensão de surpreender. A direção parece saber seguramente que quer fazer uma obra divertida, da qual saímos nos sentindo bem e pensando um pouco sobre a vida.
Fonte:POP