Páginas

13 de janeiro de 2014

Crítica: Ninfomaníaca – Volume 1

Divulgação
Esqueça o amor.
A mística em torno do sexo é inegavelmente um dos assuntos favoritos de boa parte dos artistas, seja no cinema, na literatura, na pintura ou em qualquer outro meio. Afinal, até hoje sexo é tabu, mas ao mesmo tempo é inevitavelmente corriqueiro.
Com este primeiro volume de “Ninfomaníaca” (“Nymphomaniac”), o diretor e roteirista Lars von Trier joga para o ar as preocupações que muitas produções tem e cumpre sua promessa, trabalhando sexo explícito com um elenco estrelas hollywoodianas.
O resultado é surpreendemente bom, mas provavelmente não é (apenas) pelo motivo que você deve estar pensando.
Um aviso importante: Este é um filme com censura 18 anos. Seu tema principal é o sexo, que aparece explicitamente em cena. Assim, este texto também vai tocar em alguns assuntos adultos, e ainda que as imagens abaixo não sejam explícitas, elas tem conotação sexual. Recomendo que não continue lendo se for menor de 18 anos ou caso seja facilmente ofendido(a) por assuntos relativos a sexo.

A obra já tem dado pano pra manga há tempos. Lars von Trier surpreendeu o público afirmando que filmaria um pornô, e o filme já coletou uma série de relatos que parecem piada, como o diretor ter pedido a Shia LaBeouf para que enviasse uma foto de seu pênis antes que aceitasse sua participação. Com o desenvolvimento do filme, não pouparam esforços na divulgação, incluindo cartazes com o elenco fazendo expressões de orgasmo, ou mesmo o título que é grafado de uma maneira alternativa, um tanto sugestiva:
Divulgação
Não ajuda o histórico do próprio diretor, que além de ser persona non grata em Cannes, é famoso por suas obras polêmicas, tanto em assuntos quanto em execução.
“Ninfomaníaca” trata da história de Joe (Charlotte Gainsbourg), uma mulher de meia-idade auto-diagnosticada como ninfomaníaca. Encontrada ferida em um beco e acolhida pelo pacífico Seligman (Stellan Skarsgård), Joe passa a lhe contar a história de sua vida e de sua ninfomania, tentando provar que é uma pessoa ruim por seu comportamento devasso. A história começa em sua infância (Maja Arsovic / Ananya Berg) e prossegue por sua juventude e vida adulta (Stacy Martin), passando por suas principais experiências sexuais e todos os inúmeros encontros que a trouxeram até onde está hoje.
Se a sinopse ou a temática te deixaram com a expectativa de um filme pornô, vá com calma. Esqueça a ideia de ter uma trilha sonora ruim, ângulos de câmera forçados, atuação fraca ou corpos suados se esfregando. Não, peraí – pode esperar esse último item, sim.
Lars von Trier conseguiu algo inesperado – e já digo isso logo de cara para que não haja dúvida: ele conseguiu fazer um excelente filme com base em sexo.
Divulgação
Fiel à fórmula, é inegável que von Trier bebeu na fonte do pornô: o tema de “confissões” ou “memórias” sexuais é recorrente no universo erótico, e dita a base do filme, ainda que não com o mesmo tom de proibição e censura visto geralmente. Conforme narra para Seligman seus segredos, Joe admite mais de uma vez a intimidade dessas informações, e nós, como público, fazemos parte desse segredo. Os amantes de Joe e outros personagens-chave de sua história depravada ganham nomes definidos apenas por uma inicial, ao mesmo tempo que cada cena de sexo ganha detalhes e uma intimidade quase proibitiva.
Na verdade, mais do que a própria história, “Ninfomaníaca” tem como força a montagem. Individualmente, as histórias de Joe seriam interessantes, mas é pela combinação certa de elementos, narração e apresentação que se atinge a melhor experiência.
A narrativa da protagonista não é isenta. Mais do que comentar sobre o que a excitava em cada um dos homens ou dos encontros – aqui, a subjetividade é a chave para tornar as cenas mais pessoais e intensas – ela vê a própria história com olhos pessimistas, julgando a si mesma. Seligman, por outro lado, prefere vê-la de modo neutro ou positivo, evitando o pessimismo da protagonista e colocando o próprio público em uma situação de questionamento do que entendemos como “bom” e “ruim” quando o assunto é sexo.
Na verdade, em sua essência, “Ninfomaníaca” não é necessariamente uma história sobre sexo. O sexo aqui é um meio, mais do que um fim, e ainda que Joe prefira mostrar uma fixação e ver seu comportamento como repreensível e obsessivo, conforme conta a história, com a análise de Seligman, vemos que a conversa vai além. Por trás de toda a roupagem erótico-pornográfica, há uma discussão sobre a vida, sociedade, filosofia e muitos outros assuntos. A ninfomania de Joe é analisada por associações psicológicas, mas além disso as conversas passam por religião, música clássica, matemática, pescaria e vários outros campos completamente inesperados. (Vale observar, essa regra também funciona para a trilha sonora, que tem a mesma variedade, combinando inspirações clássicas com uma faixa de rock pesado que abre e fecha o filme, aparentemente sem qualquer nexo, mas fazendo sentido pela soma total dos elementos.)
Divulgação
A produção não se alonga em psicologia “de consultório”, o que é um ponto positivo. Lógico, o filme aproveita bem a relação de Joe com os pais, com sua mãe distante (Connie Nielsen) e o pai sempre presente (Christian Slater), e muito dessa influência adiciona à história, mas a discussão é muito mais lógica e moral. Não se falam de distúrbios, doenças e traumas, mas de “certo e errado”, “bom e ruim”, pecado, lições, e lógica. E não, ainda que o conceito de pecado entre em jogo, nenhum dos personagens é religioso, então o assunto mal entra na equação do filme de maneira direta.
Por se tratar de um relato, a obra não precisa de linearidade. A própria Joe tem dificuldade de saber por onde começar, e o filme vai e volta em pontos diversos de sua vida. Isso é ideal – alguns momentos de sua vida adulta só fazem sentido quando conta suas aventuras da infância, ou coisas que aprendera com seu pai, de modo que o vai-e-volta é pertinente e permite explicitar momentos mais específicos.
A presença de Seligman não é gratuita. Mais do que um mero espectador, ele colabora com a história, traçando paralelos entre os acontecimentos da vida de Joe com suas próprias experiências, e com seu vasto conhecimento de assuntos diversos. Os universos dos personagens se misturam, e em meio à narração temos cortes súbitos para imagens, diagramas e explicações que, por absurdas que possam ser, revelam muitos detalhes da trama e silenciosamente montam as cenas. Essas interrupções passam a ser esperadas, alimentando a imaginação do público e auxiliando a maneira que a história é contada.
Seja uma fita com uma gravação inacabada ou diagramas e uma dissertação sobre os números da sequência de Fibonacci, pode esperar que a coleção de referências, no fim das contas, se torne algo muito maior do que o todo, e olhos atentos irão encontrar várias outras pequenas referências e símbolos que nenhum dos personagens menciona, mas estão lá.
Divulgação
Nessa linha, vale ressaltar que o fantástico faz parte o tempo todo da narração. Há, em parte, o próprio enredo com muita simbologia e fatos convenientes – a própria Joe mais de uma vez abre a discussão sobre a total veracidade do conto -, além do clima de conto erótico. Mais do que isso, as análises e os assuntos paralelos muitas vezes culminam em cenas imaginárias que oscilam do bizarro ao impagávelmente cômico, implicitamente brotando da imaginação fértil de Seligman.
A história completa é dividida em dois filmes, somando 8 capítulos (neste primeiro, vamos até o final do 5). Cada capítulo é uma história que colabora para um todo, mas por serem contados separadamente, ganham elementos próprios de montagem. No geral, isso é feito tematicamente – o primeiro capítulo trabalha uma série de metáforas e paralelos de pescaria, e outro mais à frente fala de música e polifonia – ou mesmo graficamente – um capítulo, em especial, é inteiramente em preto-e-branco.
Em termos de enredo isso também acontece. Ainda que dramático e tenso, o filme tem alguns temas humorísticos em segundo plano quase constantemente, geralmente graças aos paralelos gráficos. Porém, vale destacar um segmento em especial: em certo ponto, Joe tem que lidar com a esposa de um de seus casos (Uma Thurman). A cena tem um humor situacional absurdo, que começa quebrando todas zonas de conforto, primeiro dos personagens e depois do público. Temos uma sequência de diálogos repletos de uma ironia mordaz, da qual é difícil não rir, mas ao mesmo tempo temos plena consciência que não gostaríamos de estar no lugar de nenhum dos presentes.
Divulgação
Agora sejamos sinceros – imagino que boa parte de vocês está aqui pelo sexo. Então vamos falar disso: a própria Joe parece seguir a filosofia que o slogan do filme prega (“Esqueça o amor.”), sendo que ainda que o filme discuta relacionamentos, seja com os casos sem nome ou com seu primeiro amor Jerôme (Shia LaBeouf), os anos lhe deixaram cética demais para sentimentos do tipo.
Em meio à narração, as referências intelectuais se misturam com a perversão: Dois dos números de Fibonacci surgem no número de estocadas que Joe tomou em sua primeira transa (3 na frente, 5 atrás); em outro momento sua vagina é comparada a uma isca, e sua busca por homens é o método do pescador procurando presas; mais tarde, um trio de amantes – entre tantos – vira uma composição melódica complexa.
“Ninfomaníaca” não tem pudores para mostrar sexo. Você verá penetrações, sexo oral (praticado por ambos gêneros) e alguns ângulos de câmera consideravelmente ginecológicos. Nem sempre é agradável, mas ninguém falou que seria – os primeiros relatos de Joe tratam de masturbação infantil, com pequenos jogos quase eróticos que ganham tons pervertidos por sua narração. Ver as atrizes-mirim deslizando pelo chão de um banheiro é sem dúvida perturbador, e a primeira experiência sexual de Joe, aos 15 anos, também não é sem certo estranhamento, tanto pelo sexo ruim quanto pelo fato da personagem ser menor de idade. Aqui só aumenta a ideia de que vemos algo proibido.
Divulgação
A estrela das cenas picantes é Stacy Martin, com uma infinidade de parceiros, em cenas de tamanhos variados e em todas as posições possíveis. Vale lembrar, o sexo que vemos em cena é de mentira, ao mesmo tempo que não. Para evitar atrapalhar a carreira de qualquer um dos envolvidos, as cenas foram feitas com sexo simulado, combinado com computação gráfica com dublês de corpo fazendo sexo real. Ou seja, nada ali é de mentira, e sim, você vai ver muita nudez “de verdade” também. É claro, como as aventuras de Joe são heterossexuais, não se assuste se tiver que encarar vários pênis. Aliás, uma montagem, a certa altura, mostra dezenas de membros em close em alguns segundos, o que tem um efeito no mínimo impactante com a tela do cinema.
É importante ressaltar que o que temos agora no cinema não é a pornografia máxima da obra. A produção lançou uma primeira versão cortando cenas de closes de órgãos genitais, o que reduziu as 5 horas de meia dos dois volumes do filme para 4 horas. Então, se você está aqui só pela sacanagem, espere o lançamento em Blu-Ray ou torça pelo lançamento completo nos cinemas do Brasil.
No fim das contas, a obra de Lars von Trier sempre divide opiniões – historicamente, a crítica dificilmente tem um consenso, e mesmo entre o público há muita variação – então é difícil prever quem irá gostar de “Ninfomaníaca”. Deixo minha recomendação a todos que gostam de uma boa história, contada de um jeito interessante. Ou para aqueles que queiram uma desculpa boa para ver uma sacanagenzinha sem serem julgados.
Fonte:POP

Nenhum comentário:

Postar um comentário