A medida de Washington é uma represália à onda de repressão a
militantes da Irmandade Muçulmana desde a queda do presidente Mohamed.
Os EUA anunciaram ontem que cortarão grande parte da
bilionária ajuda militar ao Egito, confirmando informações que
circulavam desde terça-feira à noite. A medida representa uma mudança
significativa na política americana para a região. Antes do anúncio
oficial, Israel havia feito um apelo para que o governo de Barack Obama
não desse esse passo e mantivesse o apoio aos generais do Cairo na luta
contra grupos islâmicos.
A medida de Washington
é uma represália à onda de repressão a militantes da Irmandade
Muçulmana desde a queda do presidente Mohamed Morsi, no início de julho.
Por meio de um comunicado à imprensa, a porta-voz do Departamento de
Estado dos EUA, Jen Psaki, afirmou que Washington suspendeu o envio de
"material militar pesado e de sua ajuda em dinheiro ao governo
(egípcio), à espera de um progresso real em direção a um regime civil
inclusivo, democraticamente eleito, e a eleições justas".
A
diplomacia americana enfatizou que não cortará toda a ajuda. A
cooperação em setores como contraterrorismo e luta contra a proliferação
de armas de destruição em massa, além do apoio à segurança na Península
do Sinai - que faz fronteira com Israel -, serão mantidos intactos,
garantiu Washington.
Segundo fontes do
Congresso americano informadas pelo Departamento de Estado sobre a
decisão, o governo Obama deixará de entregar ao Egito várias armas de
última geração cujos contratos já estavam concluídos: tanques M1A1
Abrams, caças F-16, helicópteros Apache e mísseis Harpoon. Além disso,
os EUA suspenderão uma transferência direta de US$260 milhões e um
empréstimo de US$300 milhões ao governo do Cairo.
Após
o golpe contra o primeiro presidente eleito democraticamente no Egito,
várias figuras-chave do governo americano teriam passado a defender o
corte parcial da ajuda financeira aos militares do Cairo. Em agosto,
Obama supostamente esteve prestes a anunciar a suspensão parcial, mas o
uso de armas químicas na Síria tirou da agenda a crise egípcia. A morte
de 50 manifestantes da Irmandade, no fim de semana, teria feito o
presidente decidir pela "punição" aos generais do Cairo.
Com
a assinatura dos acordos de paz com Israel, em 1979, o Egito tornou-se
um dos principais beneficiários da ajuda militar dos EUA. A cifra atual
chega a US$1,3 bilhão, além de outras centenas de milhões de dólares em
ajuda não militar. O dinheiro às Forças Armadas é usado pelo Egito
principalmente para a compra de material bélico americano e manutenção
do equipamento.
Amigos - Os
principais aliados estratégicos dos EUA no Oriente Médio, Israel e
Arábia Saudita, opunham-se desde o início à ideia de cortar a ajuda
militar ao Egito e, nos bastidores, manifestaram frustração com o
anúncio de ontem do Departamento de Estado. "Se os EUA são vistos como
alguém que vira as costas ao Egito, um velho amigo, como ficará a imagem
americana? As pessoas veem isso como os EUA desistindo de um amigo",
disse uma fonte do governo israelense citada, em condição de anonimato,
pelo New York Times. Segundo ela, as implicações vão muito além das
relações entre Israel e Egito e envolvem o conjunto da política externa
americana na região.
Questionado sobre o tema, o
primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, disse, na semana
passada, que só falaria "de maneira geral", completando que a paz entre
Israel e Egito tem por base o apoio de Washington aos militares
egípcios. O ministro de Assuntos Estratégicos de Israel, Yuval Steinitz,
recusou-se ontem a comentar a decisão de Obama, mas disse: "Acho que é
preciso fortalecer e apoiar o Egito, falando de um modo geral".
O
anúncio dos EUA foi feito enquanto o ministro da Defesa de Israel,
Moshe Yalon, visitava Washington. Ele se reuniu com seu homólogo, o
chefe do Pentágono, Chuck Hagel.
Na semana
passada, o presidente interino do Egito, Adli Mansour, apontado pelos
militares, havia sido recebido na Arábia Saudita, que prometeu ampliar o
apoio aos militares egípcios na luta contra a Irmandade. / NYT, AP e
REUTERS
Fonte: Estadão Conteúdo
Foto: Estadão Conteúdo
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